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Monthly Archives: January 2017

A modernidade nos acostumou à ideia de liberdade como expressão da autonomia individual. Hoje, ela nos é uma ideia tão natural que parece simplesmente impossível pensar de outra forma.

Nossos professores procuram criar alunos autônomos, os pais lutam por terem filhos autônomos, os psicólogos agem para reconduzir seus pacientes à condição de sujeitos autônomos, a democracia pede por cidadãos autônomos.

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Goma (nascido João Marcelo Capelão) é o mais notório e prolífico pixador de Belo Horizonte (optamos pela grafia de rua pixação à pichação, e de pixo à picho). Já foi preso duas vezes. Na primeira, em 2010, ficou quatro meses em cana. Na segunda, no ano passado, oito meses. Mas ainda pode voltar. Está respondendo a processo não apenas por pixação (que poderia levar a pena de seis meses a um ano de prisão, o que significa que o encarceramento deveria ser substituído por trabalho comunitário), mas também por formação de quadrilha (o que aumenta a possibilidade de condenação para até oito anos, obrigando ao cumprimento inicial da pena em regime fechado). Desde a onda repressiva que se seguiu a pixação da Igrejinha da Pampulha, na qual foi injustamente envolvido, Goma virou o alvo principal da perseguição policial aos pixadores em Belo Horizonte. Para a entrevista que se segue, Goma recebeu O Beltrano em sua casa poucos dias depois de ter progredido da prisão preventiva para a domiciliar (está usando tornozeleira eletrônica). Abaixo, a transcrição da nossa conversa sem nenhuma censura.

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Não há mundo comum. Jamais houve. O pluralismo está conosco para sempre. Pluralismo de culturas, sim, das ideologias, das opiniões, dos sentimentos, das religiões, das paixões, mas também pluralismo das naturezas, das relações com os mundos vivos, materiais e também com os mundos espirituais. Nenhum acordo possível sobre o que compõe o mundo, sobre os seres que o habitam, que o habitaram, que devem habitá-lo. Os desacordos não são superficiais, passageiros, devidos a simples erros de pedagogia ou de comunicação, mas fundamentais. Eles ferem as culturas e as naturezas, as metafísicas práticas, vividas, vivas, ativas. Inútil, por consequência, dizer: “Nós talvez diferimos superficialmente por nossas opiniões, nossas ideias, nossas paixões, mas, no fundo, somos todos semelhantes, nossa natureza é a mesma e aceitamos colocar de lado tudo o que nos separa, e então iremos partilhar o mesmo mundo, habitar a mesma morada universal”. Não, se nós colocamos de lado o que nos separa, não há nada que nos resta para colocar em comum. O pluralismo fere muito profundamente. O universo é um pluriverso (James).

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